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segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Dizem que aquilo que lemos diz algo sobre nós. Talvez sim, talvez não. E o sítio onde se lê, não importa? E foi a pensar nisto que cheguei à conclusão que já é tempo de nos conhecermos melhor. Quer dizer, porque isto de andar a ler os blogs dos outros, gera, inevitavelmente, intimidade. Daí que blá blá e coisa e tal, surge a perguntinha da semana:

Qual a literatura que povoa o seu WC?

segunda-feira, 23 de julho de 2007

Livros








Joana Pimentel
Book series (Benjamin)
, 2006 Endura | Edition of 3
55 x 70 cm


Os livros. E tudo o que trazem com eles. O prazer de os namorar antes de comprar, de os folhear na livraria, de os devorar no sofá ou na cama numa manhã luminosa de domingo, de reler e marcar as páginas de que mais se gosta, de mergulhar em novas vidas a cada página. Os livros. O prazer de os acumular e ver um pequeno tesouro a crescer, como se fosse parte de nós, da nossa parte mais bonita, mais profunda. Os livros. Disseminados, empilhados, na estante, ao acaso, por ordem alfabética de autor, de título, na sala, no quarto, no wc, na mesinha de cabeceira, nas prateleiras, no beiral da janela, no porta luvas ... ora completem ;) ...

sexta-feira, 22 de junho de 2007

Amantes e Outros Nomes de Família













Maria do Rosário Pedreira | Maria João Seixas
| Aldina Duarte

Ela disse-lhe: Temos, definitivamente, que nos conhecer melhor e só os grandes espíritos nos podem iluminar o caminho." Maria João Seixas (via AldinaDuarte)

E foi isso que aconteceu. Ontem à noite. Nas Quintas de Leitura. Maria João Seixas foi convidada a conversar com a poetisa Maria do Rosário Pedreira. Encantaram.

Maria João Seixas encantou pelo discurso, pela partilha da sua visão de poesia e sobretudo pela forma cativante como dialogou com a poetisa e com a audiência. Dela, ficou a frase: "é a poesia que escolhe o poeta". Sem dúvida uma das mulheres mais inteligentes, interessantes e charmosas do nosso país.

Maria do Rosário Pedreira encantou pelos poemas que partilhou, poemas que desvendaram as palavras que a sua timidez não deixou fluir. Não conhecia a sua poesia. Gostei, muito.

E no final cantou-se o fado. Aldina Duarte subiu ao palco e deliciou quem a ouviu. Trouxe-nos fados originais, com letra escrita por si, cantados com uma voz forte e de uma extrema doçura. E trouxe-nos o maravilhoso som da guitarra portuguesa. O último fado foi escrito pela Maria do Rosário Pedreira. Lindíssimo. Que bom é ouvir um bom fado!

Com este poema partilho um pedacinho da noite de ontem:

"Não tenhas medo do amor. Pousa a tua mão
devagar sobre o peito da terra e sente respirar
no seu seio os nomes das coisas que ali estão a
crescer: o linho e genciana; as ervilhas-de-cheiro
e as campainhas azuis; a menta perfumada para
as infusões do verão e a teia de raízes de um
pequeno loureiro que se organiza como uma rede
de veias na confusão de um corpo. A vida nunca
foi só Inverno, nunca foi só bruma e desamparo.
Se bem que chova ainda, não te importes: pousa a
tua mão devagar sobre o teu peito e ouve o clamor
da tempestade que faz ruir os muros: explode no
teu coração um amor-perfeito, será doce o seu
pólen na corola de um beijo, não tenhas medo,
hão-de pedir-to quando chegar a primavera."

Maria do Rosário Pedreira

quinta-feira, 31 de maio de 2007

Por favor internem este senhor

No dia em que V. Gato foi às Quintas de Leitura comprei, logo à chegada, o seu último livro, "Omertá". Aprendi desde logo uma lição: mais vale ver se presta e depois, só depois, comprar. Mas nada foi em vão. O livro, A5, de apenas 65 folhas (acabadas de contar) ficou na minha carteira e, desde então, delicio-me a ler pequenos trechos deste que é (não sei bem como mas ele também não sabe) a nova promessa da poesia em Portugal. Ficam aqui alguns dos seus deliciosos poemas. Como não tinham título eu mesma me encarreguei da tarefa.

Poema #1 Título: Internem este senhor # 1

"O astro sedado que se apodera do meu corpo. Um frasco com a minha vida dentro que a meio da noite se estilhaça noutra divisão. A lua, uma papoila." V. Gato in Omertá

Poema #2 Título: Internem este senhor # 2

"Damos vertigens. Se entramos uns nos outros damos vertigens." V. Gato in Omertá

Poema #3 Título: Internem este senhor # 3

"Porque o poema é sempre contra o vómito. Porque o poema é sempre, SOBRETUDO, contra engolir o vómito." V. Gato in Omertá

Poema #4 Título: Internem este senhor # 4

"A única dignidade da vida é narrar-se. Ouvir-se nos anfiteatros. O resto é fome, violência e esperma." V. Gato in Omertá

Espero que tenham gostado deste momento de profunda partilha. Um grande bem-haja a todos vós :) .

sexta-feira, 18 de maio de 2007

Gato pardo

Ontem à noite Vasco Gato esteve nas Quintas de Leitura. Não convenceu. Os poemas pareceram-me totalmente sem nexo. Frases soltas, sem sentido, nada sentidas. A entrevista com Gato foi ainda pior. Pouco ou nada disse. Discurso muito vazio. Parecia não saber muito bem como foi ali parar. Deixo as frases de Gato que marcaram a noite:

"Será que se pode viver poeticamente?"
"Gosto de ser abalroado"
"Sinto-me intoxicado"
"Á noite estamos mais sujeitos"

:))))) Enfim, pela amostra tirem as vossas conclusões. Apesar de o Gato ser pardo a noite foi gira, com uma performance inicial interessante e o grupo Dead Combo a actuar no final. Com uma sonoridade muito interessante e o uso de diversos instrumentos os Dead Combo convenceram. Gostei.

quarta-feira, 16 de maio de 2007

Um no Outro

imensamente nos deitamos um no outro
e não mais nascemos para a mão escura
que tapa o sol e afoga a lua

estamos como se tudo estivesse connosco
e connosco estivessem os nomes que primeiro se deram
flor rio azul estrela terra
de Vasco Gato

Vasco Gato está esta semana nas Quintas de Leitura, no Teatro do Campo Alegre. Quinta-feira, dia 17 de Maio, às 22h

terça-feira, 8 de maio de 2007

Un poeta en Nueva York
de Federico Garcia Lorca






















La aurora de Nueva York tiene
cuatro columnas de cieno
y un huracán de negras palomas
que chapotean en las aguas podridas.

La aurora de Nueva York gime
por las inmensas escaleras
buscando entre las aristas
nardos de angustia dibujada.

La aurora llega y nadie la recibe en su boca
porque allí no hay mañana ni esperanza posible.
A veces las monedas en enjambres furiosos
taladran y devoran abandonados niños.

Los primeros que salen comprenden con sus huesos
que no habrá paraísos ni amores deshojados;
saben que van al cieno de números y leyes,
a los juegos sin arte, a sudores sin fruto.

La luz es sepultada por cadenas y ruidos
en impúdico reto de ciencia sin raíces.
Por los barrios hay gentes que vacilan insomnes
como recién salidas de un naufragio de sangre.

domingo, 6 de maio de 2007

'Toi et moi'


henri cartier-bresson

Je suis un, mais des multitudes sont en moi.
Tu m’embrasse et je te parle,
Je te parle de mes choses.

Je suis ici mais, je veut être là, avec toi.

À toi!

quarta-feira, 2 de maio de 2007

Gargalhada

Homem vulgar! Homem de coração mesquinho!
Eu te quero ensinar a arte sublime de rir.
Dobra essa orelha grosseira, e escuta
o ritmo e o som da minha gargalhada:
Ah! Ah! Ah! Ah!
Ah! Ah! Ah! Ah!

Não vês?
É preciso jogar por escadas de mármores baixelas de ouro.
Rebentar colares, partir espelhos, quebrar cristais,
vergar a lâmina das espadas e despedaçar estátuas,
destruir as lâmpadas, abater cúpulas,
e atirar para longe os pandeiros e as liras...

O riso magnífico é um trecho dessa música desvairada.

Mas é preciso ter baixelas de ouro, compreendes?
e colares, e espelhos, e espadas e estátuas.
E as lâmpadas, Deus do céu!
E os pandeiros ágeis e as liras sonoras e tremulas...

Escuta bem:
Ah! Ah! Ah! Ah!
Ah! Ah! Ah! Ah!

Só de três lugares nasceu até hoje essa música heróica:
do céu que venta,
do mar que dança,
e de mim.

de Cecília Meireles

quinta-feira, 26 de abril de 2007

Voy con las riendas tensas...

Voy con las riendas tensas
y refrenando el vuelo
porque no es lo que importa llegar sólo ni pronto,
sino llegar con todos y a tiempo.

León Felipe (1884 - 1968)

quinta-feira, 12 de abril de 2007

Emprestaram-mo noutro dia em jeito de intimidação. Disseram-me: Porque não lês este livro?...» Fiquei intrigada. Um livro que falava sobre um palhaço era coisa que não me estava a apetecer muito ler mas lá insisti comigo. Às vezes sabe bem insistirmos connosco. Chegamos mais longe, tornamo-nos maiores. Gostei da serenidade quase angélica do livro.

Miller
, que nasceu em Nova Iorque em 1891 e morreu em 1980 em Pacific Palisades na Califórnia, ficou conhecido por desafiar a sua época com a sua escrita contestatária e libidinosa. "Trópico de Câncer" (1934) e "Trópico de Capricórnio" (1938) são alguns dos seus livros que mais chocaram a sociedade tecnocrata do século XX.

"O Sorriso aos pés da Escada"
é, por isso, uma abstracção na sua criação literária. Escrito a pedido do pintor Fernand Léger, a história do palhaço Augusto é de um humanismo próximo da poesia. Miller diz: "O palhaço é um poeta em acção." E acrescenta: "Ele é a história que desempenha."

Miller considera "O Sorriso aos pés da Escada" a sua obra mais "verdadeira". Talvez porque, tal como revela no epílogo, "quando Augusto se torna ele próprio, a vida começa - e não só para Augusto: para toda a humanidade".

sexta-feira, 23 de março de 2007

Segredo

Esta noite morri muitas vezes, à espera
de um sonho que viesse de repente
e às escuras dançasse com a minha alma
enquanto fosses tu a conduzir
o seu ritmo assombrado nas trevas do corpo,
toda a espiral das horas que se erguessem
no poço dos sentidos. Quem és tu,
promessa imaginária que me ensina
a decifrar as intenções do vento,
a música da chuva nas janelas
sob o frio de fevereiro? O amor
ofereceu-me o teu rosto absoluto,
projectou os teus olhos no meu céu
e segreda-me agora uma palavra:
o teu nome - essa última fala da última
estrela quase a morrer
pouco a pouco embebida no meu próprio sangue
e o meu sangue à procura do teu coração.

Fernando Pinto do Amaral in «Às Cegas»- Poesia Reunida 1990 - 2000, Lisboa, Publicações D. Quixote, 2000


Ontem Fernando Pinto do Amaral esteve nas "quintas de leitura", no Teatro do Campo Alegre e falou sobre a poesia e as palavras. Para além dos poemas, muito bem declamados, encantou-me a forma como falou das palavras. As palavras, disse, precisam de ser tratadas, cuidadas e, de vez em quando, limpas, polidas de modo a renascerem com novos significados. Pinto do Amaral é autor de uma tradução de As Flores do Mal, de Baudelaire, que lhe valeu o Prémio Pen Club e o Prémio da Associação Portuguesa de Tradutores. Traduziu também outros poetas, como Verlaine e Jorge Luis Borges, organizou diversas edições e publicou dois livros de ensaio literário. Publicou cinco livros de poesia, tendo reunido os primeiros quatro no volume Poesia Reunida (2000). Estreou-se com Acedia, em 1990. Acabou de publicar Pena Suspensa.

quarta-feira, 21 de março de 2007

Dia Mundial da Poesia, 21| mar

uma prenda de pablo neruda, neste dia dedicado à poesia.

QUEM MORRE?

Morre lentamente
quem não viaja, quem não lê,
quem não ouve música,
quem não encontra graça em si mesmo.

Morre lentamente
quem destrói seu amor
próprio, quem não se deixa ajudar.

Morre lentamente
quem se transforma em
escravo do hábito,
repetindo todos os dias os mesmos trajetos, quem não muda de marca, não se arrisca a vestir uma nova cor ou não conversa com quem não conhece.

Morre lentamente
quem evita uma paixão e seu redemoinho de emoções, justamente as que resgatam o brilho dos olhos e os corações aos tropeços.

Morre lentamente
quem não vira a mesa quando está infeliz com o seu trabalho ou amor, quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho, quem não se permite, pelo menos uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos...

Pablo Neruda

há que seguir o conselho do pablo neruda: viajar muito, ler, ouvir música, mudar, ousar, e sobretudo divertirmo-nos connosco (neruda copied this advice from a very dear friend).

terça-feira, 13 de março de 2007

De tarde

naquele piquenique de burguesas
houve uma coisa simplesmente bela
e que, sem ter história nem grandezas,
em todo o caso dava uma aguarela.

foi quando tu, descendo do burrico,
foste colher, sem imposturas tolas,
a um granzoal azul de grão-de-bico
um ramalhete rubro de papoulas.

pouco depois, em cima duns penhascos,
nós acampámos, inda o Sol se via;
e houve talhadas de melão, damascos,
e pão-de-ló molhado em malvasia.

mas, todo púrpuro, a sair da renda
dos teus seios como duas rolas,
era o supremo encanto da merenda
o ramalhete rubro de papoulas!

Cesário Verde

procurei no youtube este poema declamado pelo João Villaret, mas a globalização de conteúdos ainda não chegou tão longe. fica de qualquer modo o poema, num dia de sol, em que um almoço rápido no parque da cidade fez lembrar como a tranquilidade do dia, da simples existência, continua lá, mesmo num intenso dia de semana.